23/10/2007

Cap 53: Espera (Ruan)

O médico respirou fundo, depois olhou para os óculos que segurava na mão e levantou as sobrancelhas grossas e grisalhas:

_Você pode me acompanhar até a minha sala? _ pediu, esticando o braço para tocar o meu ombro.

Não disse nada, apenas aceitei sua indicação do caminho e deixei para trás Fonseca e minha mãe. Caminhamos por aquele corredor frio e com um forte cheiro de éter. Entramos na terceira porta e ele sentou-se à mesa.

_Seu nome é Ruan, certo? _ olhou na ficha em sua mesa e folheou os papéis em que eu tinha dado entrada no hospital.

_Doutor, se puder me dizer logo o que está acontecendo... _ pedi, com as mãos entrelaçadas e apertadas entre os joelhos unidos, nervoso e muito ansioso.

_Meu rapaz, acho que a sua mulher é muito forte. Ela perdeu bastante sangue...

Isso tudo eu já sabia! Mas não o interrompi, afinal, se era realmente preciso aquela introdução com tanta redundância para que eu pudesse agüentar o que viesse depois, então, que eu só ouvisse.

_Nós conseguimos retirar o projétil e também monitorar o bebê durante a cirurgia para que ele também ficasse bem. Eram duas vidas em nossas mãos!

_As vidas mais importantes para mim agora.

_Eu imagino. Soube pela enfermeira que ela passou por um seqüestro e isso deve ter sido horrível para vocês.

_Realmente, foi um grande trauma que eu nem sei ainda os efeitos porque sinto que a ficha não caiu. Parece que ainda estou em estado de tensão máxima e uma hora vão desligar a tomada e eu vou cair.

_Por isso aconselho que descanse. Pois bem, Ruan, como eu dizia, sua esposa está viva, mas ela não está consciente. Ela, mais precisamente, está em um estágio comatoso.

_Em coma? _ repeti aquilo. Eu não sabia o que era aquele estágio comatoso, mas, se fosse o que eu conhecia de coma, ela estava vegetando? É isso?! Tentei não me desesperar antes que ele pudesse terminar. _ Como assim? Não disse que ela está viva, que...? _ não agüentei e comecei a fazer perguntas.

_Ruan, ainda temos muito que estudar na medicina sobre a complexidade da mente humana. Os neurocientistas se debruçam sobre este tema há anos e ainda sinto que mal começamos. Mas, eu vou tentar te explicar de maneira bem simples o que já sabemos até então. O coma é uma lâmpada que tinha um brilho bem forte, mas, de repente, por algum motivo, ficou muito fraca. Tecnicamente falando, é um rebaixamento do nível da consciência.

_Ela está igual um vegetal? Já ouvi falar sobre isso no período em que a imprensa debateu o caso da Terri Schiavo.

_Não! Não! _ ele abanou a mão direita no ar em sinal de enfática negação. _ As pessoas confundem mesmo. O cérebro tem uma parte que funciona no “piloto automático”, como, por exemplo, o estado de sono e de vigília, os reflexos de sucção, reação do acompanhamento do olhar e muitos outros. No coma, sobra esse automatismo do cérebro e a pessoa continua respirando e o sangue sendo bombeado pelo coração. Mas, no estado vegetativo a pessoa, não tem essas funções voluntárias, precisa dos aparelhos para mantê-la viva. No coma, a pessoa pode voltar depois de anos!

_Anos? _ repeti aquilo, quase sem voz. Eu estava desolado.

_O caso que mais me surpreendeu na história da medicina foi de um homem que parece com o nome da Terri que você citou. Mas é com “y”, se chama Terry Wallis. Ele, hoje, tem cerca de 40 anos. Mas, em 1984, pegou carona com um amigo e o carro caiu em um riacho. O amigo morreu e ele ficou em coma por 19 anos! Acredite se quiser, ele acordou. E a sua filha, que tinha nascido alguns meses depois do acidente, tem 19 anos ou 20 anos agora... já perdi um pouco as contas. _ ele riu amistosamente.

Para mim, nada tinha graça. Eu não queria criar o meu filho sozinho.

_Mas, peraí, se ela está em coma, como fica o bebê?

_Isso é que vamos tentar fazer de tudo para resolver. Temos que manter suas condições vitais para que termine de gerar o bebê. Ruan, ela pode acordar daqui uns dias, daqui meses, anos...

_Ou nunca mais?

_Isso só o tempo dirá. Os médicos não salvam, eles só aliviam as dores, meu rapaz. _ explicou humildemente. _ Eu vou perguntar se já pode vê-la.

_Tudo bem. _ levantei-me.

_E... _ ele pareceu ter esquecido de alguma coisa quando girou a maçaneta da porta. Virou-se para mim. _... As pessoas em coma podem ter reflexos, apertar a sua mão quando tocá-la, abrir e fechar os olhos, mexer a cabeça... Mas, isso não significa...

_Já entendi, são reflexos voluntários que ela não controla?

_Exato. _ ele deu-me um tapinha nas costas e apoiou a mão no meu ombro. _ Você pode voltar para a sala de espera que eu peço para uma enfermeira avisá-lo.

_Obrigado. _ apertei sua mão.

Fui recebido pelos olhos apreensivos de minha mãe. Tentei repassar-lhe tudo que o médico me dissera. Logo em seguida, chegou Fonseca com uma roupa para eu vestir que fora buscar em minha casa à pedido da minha mãe. Dei-lhe as últimas notícias. Depois, foi a vez de repetir tudo à mãe de Jeni, que se encarregou de bom agrado de comunicar à imprensa.

Procurei um banheiro para trocar de roupa. Lavei os braços e o rosto. Sequei-os com a toalha de papel e a joguei no lixo. Voltei para a sala de espera.

_Você é o marido da paciente Jeniffer? _ a enfermeira aproximou-se de mim. _ Pode me acompanhar?

_Claro. _ levantei-me e a segui.

Passamos para uma área silenciosa do hospital. Um corredor vazio e comprido que trazia uma sensação de opressão. Pus as mãos no bolso, acuado. Uma parede com a metade superior de vidro me separava agora do quarto onde Jeni estava. A enfermeira abriu a porta para que eu pudesse entrar. Deixou-nos à sós.

_Meu amor... _ toquei na sua mão delicadamente. _ ... Eu vou estar com você. _ inclinei-me sobre ela e beijei-a na testa. _... Dorme o quanto for preciso para você se recuperar e cuidar do nosso menino. Ele vai ser muito bagunceiro, sabia...? _ afastei com as pontas dos dedos os fios do seu cabelo para o lado. _ ... Você vai precisar de muita energia para agüentar o pique!

Os dois primeiros dias eu fiquei ao lado dela. A enfermeira aconselhou-me a ir para casa descansar. Eu lhe disse que me sentiria culpado se a deixasse.

_Nós cuidaremos bem da sua esposa. Não há nada que possa fazer diretamente para ela sair do coma. Eu já vi muitos casos e sei que pode demorar um tempo. É hora de pensar em se restabelecer para enfrentar tudo com mais forças. Senão, vou te ver naquela maca ali daqui a pouco e não estou a fim de te dar banho, hen?!

Eu ri e balancei a cabeça para os lados. Ela estava certa.

_Vocês me ligam se...?

_Claro, será a primeira coisa que faremos!

Antes de sair do quarto, ainda olhei Jeni por um instante. A enfermeira me fez um sinal de que tudo ficaria bem e sorriu. Suspirei.

Chegando em casa, senti que estava sem forças, caí na cama e ainda ouvi minha mãe perguntar se eu queria comer alguma coisa.

_Eu só quero dormir também...


Li Mendi

(--->Agora também em Trilhas da Vida <---)

8 comentários:

Li disse...

O Ruan vai precisar ser forte!
Acho que ele está se sentindo indefeso, mesmo depois de tantos anos tentando provar que é imbatível em sua profissão, porque nada depende dele agora...
Será que a Jeni vai acordar?
Ele quis ensinar muitas coisas a Jeni, e, olha a ironia da vida, será ela que lhe irá ensinar muitas lições com a sua ausência...
A estória está cada vez mais linda!
Amanhã, nos veremos nos próximos capítulos!
Beijos meninas!

*****************************
Ah! Alguém me perguntou no capítulo anterior se essa estória era real. rs.
Não, é só real na minha cabeça e na de vocês, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. rs.
Beijos lindas! E beijo especial para aquelas que estão chegando agora!

Lívia disse...

Aiii tadinha...
se já estou mal emocionalmente, agora mesmo que estou pior pela Jeni! ;//

Mas ela vai sair dessa. Eu sei disso.Né D. Li!? rumm.. uahuahuah..

A história tá linda sim, cada vez mais emocionante! ;)

Grande beijo.

Luluzinha disse...

Huauaua, eu perguntei se vc tinha se inspirado em fatos, pq por mais q essa história pareça fantástica, coisas surpreendentes acontecem na vida real, e naum seria nada estranho os encontros e desencontros de Jeni e Ruan serem um mix de pedaços da vida de muitas outras pessoas que existem.
Sem falar na verossimilhança da maneira como os acontecimetos são narrados que faz com a história fique mais interessante, pois ela poderia acontecer com qualquer um.

Deisinha Rocha disse...

sim... Lucy.... precisando de mais chá...

to triste... muito...

sim, o Ruan vai aprender muito... e com certeza, saber que ela faz um diferença enORme na vida dele...

Li...
acho q to sem mais palavras...

bjOo ni vc, mana... e ni v6 mininasss...

Li disse...

Ah sim... a gente sempre vê as coisas por aí e se inspira Lulu. rs.
Meninas, a vida tb traz ótimas surpresas!
Não será diferente com esses dois!
Beijão da Li

mell disse...

nossa.. li um monte de capitulos hj!
fazia tempo q eu naum aparecia por aqui, meu tempo esta meio corrido!
mas li.. naum existem palavras suficientes para t elogiar! vc eh demais, mais, mais (L)
nossa... como eu chorei lendo esses ultimos 3 capitulos! imaginei cada cena, como se fossem reais!
lindo, perfeito, emocionante...

Anônimo disse...

O certo é reflexo involuntário e não voluntário...

Lucy disse...

Aieeeeeeeeee!!!!!! Ela vai acordar! Vai acordar!!! \o/

Clama... mto cháááá!!! =(

Meninas, vamos fazer um círculo aqui e nos abraçar. Torcida organizada para ela voltar para o Ruan e para o bebê!!! \o/