19/10/2007

Cap 49: Eu quero você de volta (Ruan)

Quando ouvi a voz de Jeni no telefone, meu coração doeu no peito. Eu não conseguia manter a frieza, nem a imparcialidade.

_ Ruan, confia em Cristo. Do mais alto dos céus ele vai abrir o mar como fez com Moisés! Eu te...”

Desligou.

Os policiais que estavam ouvindo tudo pelo viva-voz ficaram em silêncio por alguns segundos. Eu levei as mãos à cabeça e por fim sentei no sofá de casa.

_Eu vou arrumar o dinheiro. Eu quero a minha mulher e o meu filho de volta... _ disse-lhes.

_Ela é muito cristã? A minha também é... _ o investigador cruzou os braços.

_Não muito... _ disse-lhe e, de repente, me ocorreu que aquela frase de Jeni não era realmente típica. _ ... Peraí! Ela está mandando uma dica de onde está!

_Quê? _ Os dois homens me olharam com uma careta de incredulidade.

_O que ela disse mesmo? Do mais alto céus, Cristo alguma coisa... Abrir o mar... _ tentei me lembrar e senti que o nervosismo não estava deixando.

_Espere um pouco. _ o investigador levantou a mão em minha direção e fez um gesto para interromper minha euforia. _ Está me dizendo que sua mulher fala em códigos com você?!

_É. Eu ensinei a ela.

_Você ensinou a ela? _ ele repetiu.

Eu não perdi tempo, peguei o bloco de anotações ao lado do telefone e escrevi a frase.

_Quais são as variantes para Jesus? _ perguntei.

_Bom... _o policial realmente não estava dando crédito àquilo, mas não descartou a possibilidade. _... Jesus, filho de Deus, Senhor... Sei lá.

_Pois bem, Cristo pode ser Cristo Redentor. Mais alto dos céus... ela está em um lugar alto e o Cristo fica de frente para Baía de Guanabara! Por isso o mar!

_Mesmo assim ainda é vasto.

_Nós tínhamos o Rio de Janeiro inteiro, agora temos uma área menor! _ eu tentei pensar positivo.

_Sim, irá ajudar! Mas temos que investigar mais sobre eles.

_Acho que a mãe de Jeni pode saber. _ informei-lhes e forneci o nome dela para que pudessem buscar onde estava.

Não acredito que traria justamente Elisa para perto de mim. Mas, sob essas condições, eu faria tudo. Até me unir à Elisa.

Eles a contataram e Elisa realmente foi uma peça-chave na união de dados que nos levassem aos homens. Mas aquela era uma dura e longa espera. Nada poderia dar errado. Qualquer erro custaria a vida de Jeni.

Duas semanas se passaram e eu estava com o psicológico em frangalhos. A campainha não parava de tocar. Os amigos vinham me visitar e trazer palavras de conforto a todo instante.

Abri a porta para atender mais uma vez.

_Oi.

Era Elisa de mãos nos bolsos, cabelos presos em um coque e um sorriso de constrangimento.

_Oi. _ continuei parado na porta.

_Como está?_ perguntou.

_Pensei que tivesse voltado para...

_Não, vou ficar na casa de uma conhecida aqui até tudo se resolver. Quem sabe vocês não precisam de mim...

_Nesse caso, obrigado.

_Posso entrar?

_... _ pensei um pouco. Dei passagem. _... Entre.

Minha mãe que estava na porta da cozinha olhou-me de cara feia, mas eu fingi que não vi.

Elisa sentou-se no sofá e eu me mantive de pé.

_Eu sei o que está sentindo. _ ela falou.

_Não, não sabe. O que eu sinto é muito maior. _ falei-lhe com rancor.

_As mães têm uma ligação forte.

_Só agora sentiu isso? _ perguntei-lhe.

_Eu vim aqui em paz.

_Ok.

_Como o mundo dá voltas... _ ela levantou-se e caminhou em minha direção devagar, olhando para os próprios pés, parou na minha frente e ergueu os olhos. Tocou no meu peito. _ ... Eu sem querer estou sempre de volta à sua vida.

_Não está. _ segurei a sua mão e a tirei de mim. _ ... Você está na zona periférica. Porque o centro da minha vida agora é a Jeniffer.

_O que encontrou nela, Ruan?

_O que encontrei é justamente o que está faltando agora. O que faz ficar esse grande buraco. _ senti as lágrimas virem aos olhos. _ É o que está tirando o sentindo da minha vida. Eu não sei nomear objetivamente, mas posso provar o gosto amargo do que é não ter o que encontrei nela.

_ Bonito isso. Sentiu o mesmo por mim?

_ Senti a perda. Mas sobrevivi. Agora não sei se posso dizer o mesmo dessa vez, não sei se agüento perdê-la. Porque a Jeni é alguém por quem vale a pena viver!

_... _ ela abaixou os olhos.

_Eu não quero ser estúpido, mas... vai embora? _ pedi.

Ela engoliu em seco, virou as costas e fechou a porta atrás de si.

Minha mãe colocou a mão no meu ombro e eu sorri-lhe.

_Está tudo bem. _ caminhei até o quarto de Jeniffer e fiquei parado à porta.

Trilha sonora. (clique aqui agora!)

O cheiro dela estava ali. Seu perfume impregnava o ar vindo das cortinas, da roupa de cama, quem sabe dos vestidos do guarda-roupa... ou era só o meu pensamento?

A gaveta entreaberta da escrivaninha chamou-me a atenção. Caminhei lentamente até ela e tentei fechar, mas não consegui. Abri-a para ver o que estava empatando cerrá-la. Era um caderno de capa dura vermelha. Empurrei-o para dentro e depois fechei a gaveta.

Coloquei as mãos de volta no bolso da calça e caminhei para a saída. Parei. Cocei a nuca, virei-me e olhei a gaveta ainda mais uma vez. Retornei. Sentei-me diante da escrivaninha e reabri. Puxei o caderno.

_ “Ruan, esse é o terceiro volume. Você nem imagina quanto ainda tenho a escrever...”

Parei de ler e olhei-me no reflexo do espelho na parede. Terceiro? Para mim que ela escrevia? Puxei a gaveta para fora e encontrei mais dois cadernos. Sorri e depois comecei a rir e terminei com lágrimas nos olhos. Levantei-me, fui até sua cama. Tirei os chinelos e deitei. Senti o seu perfume no travesseiro. Fechei os olhos por uns segundos e depois voltei a folhear os cadernos. Deixei a luz do abajur ligada.

_ “Ruan, eu comecei a escrever aqui neste caderno para lhe dar de presente um dia. Não é exatamente um fluxo contínuo de idéias. São coisas soltas na minha cabeça. Tudo para que você lembre de mim...”

Aquilo era o maior tesouro que eu podia achar.

_ “Já reparou como os passarinhos nos vêem através do vidro fumê da janela? Como pode? Eu tento ficar paradinha como uma estátua, mesmo assim eles percebem o menor movimento e se assustam. Agora estou sentada no quarto vendo nosso jardim.”

Olhei a janela e a imaginei ali no quarto de costas para mim, sentada à cadeira escrevendo. O cabelo preto liso caindo sobre suas costas. Os pequenos pés descalços. As pernas cruzadas.

_ “Um dia eu já fui um passarinho medroso. Selvagem. Voava para longe quando você se aproximava. Mas você me prendia pelos olhos. Quando me olha, põe minhas forças por terra. Não posso resistir. Eu sinto agora a sensação do nosso primeiro beijo. Você me quis tão apaixonadamente que até hoje estou sob o feitiço daquela porção mágica do amor. Só que você está longe e eu aqui sozinha te escrevendo...”

Que ironia. Agora aquelas palavras se tornavam reais. Ela é que estava longe e eu ali em seu quarto lendo suas palavras.

_ “Mas eu sei quando você chega pelo barulho do coturno no chão, da chave titilando sobre o vidro da mesa. Eu fecho os olhos e espero que você venha me beijar a nuca e o pescoço”.

Senti meus olhos pesarem, havia dias que eu não dormia direito. Abracei-me ao seu caderno e ficou apenas aquela cena na minha mente. A pele lisa dos seus ombros e minha boca beijando-a. Eu a quero de volta para mim.


Li Mendi
(www.lianotacoes.blogspot.com) *de cara nova!*

9 comentários:

Deisinha Rocha disse...

aih...
ki vontade di chorar...

mta, mta, mta...

Deisinha Rocha disse...

Li, devolve logo a Jeni pro Ruan...
essa CENA agora doeu no fundo do coração...

*lágrimas, lágrimas...

Li disse...

Meu personagem é lindo pode falar?
É estranho isso, porque o Ruan é uma coisa que pré-existe dentro de mim.
Quando eu escrevo, eu não crio nada.
Eu fico simplesmente vendo a cena na minha cabeça e descrevendo.
Eu não penso "Ele vai fazer isso, depois aquilo"...
Não... Eu sento aqui e visualizo...
E hoje ele conseguiu me pegar também...
Deu para vê-lo direitinho deitado na cama, sobre a penumbra, só com a luz do abajur abraçado ao caderno?
Vamos deixá-lo dormir então.
Muita coisa está por vir...
E qnd a Li diz isso ng duvida mais de nada né?
rsrsrrs
Beijos ni vcs!

Deisinha Rocha disse...

pois é...
num disse q é um filme...


não Li... a gnt não dúvida...

Lucia disse...

*lágrimas* por favor... palavras agora, não.

vamos ficar com nossos cafezinhos luttita e com o clima lindo que ficou no ar... *suspiro*

Quel disse...

Qaundo a Li diz eu fico é esperando curiosa rpa ver o que vai acontecer, não duvido de nada mesmo!!!hehehehe
Super emocionada...da vontade de chorar!
Beijinhoss

Ana Carolina disse...

Li...devolve logo a jeni para casa dela...o ruan vai decifrar oq a jeni vai falar pq ela vai descobrir onde está...e a Elisa vai ajudar, para pelo menos se redimir um pouquinho do que ela fez...a jeni tem que voltar logo para casa!!!!!!Que dó do ruan...tadinho...

Nathália disse...

Duas semanas se passaram nessa situação?? O Li, que maldade, hehe!!

Mas a cena final do cap hj... ai... linda!!! Vamos logo Ruan, salva ela!!

Bjkinhas

aninha disse...

meu Deus!! coitadinha da Jeni!! e o Ruan coitado!! Lizinha, que aflição!!!!