11/09/2007

Cap 7: Uma nova vida para nós... dois (Ruan)

Subi os quatro degraus da minha casa e antes de abrir a porta, o carregador abriu-a do outro lado.

_E aí? _ fiz sinal de cumprimento e dei passagem para os dois homens passarem com o sofá.

Encontrei Jeni sentada no chão da cozinha, colocando as louças dentro de uma caixa de papelão. Juanito ao seu lado brincava com a barra da sua saia.

_Como estamos aqui? _ perguntei.

_Bem. _ respondeu. _ O que é isso? _ perguntou e se levantou. Juanito, que se prendera no pano da sua saia, a uma dada altura caiu e deu um latido.

_É um peixe. _ olhei para o pequeno aquário em minhas mãos.

_Jura, pensei que fosse um dinossauro!_ ironizou ela.

_Rá-rá-rá! _ forcei uma risada e cerrei os olhos. _ Muito engraçadinha.

_É para fazer companhia com o meu dinossauro? Ele saiu do ovo recentemente..._ ela não perdia a chance de brincar comigo. Tomou o aquário da minha mão. _ Qual é o nome dele?

_Nunca dei um nome para ele. Estava lá na minha sala do quartel. Ele foi esquecido pelo comandante anterior.

_Você nem tem nome e foi esquecido... _ ela conversou com o peixe laranja do aquário._ E ainda vive aí solitário...

Eu imaginei que ela estivesse se projetando no pobre animal.

_Vamos levá-lo no carro conosco. _ eu disse-lhe. _ Agora preciso tirar essa farda e comer. Sobrou algo aqui que não foi empacotado ainda.

_Tem a ração do Juanito.

_Você hoje está tão cheia de gracinhas... _ encostei o polegar no seu nariz pequeno e pontudo.

_Estou feliz... _ ela colocou o cabelo atrás da orelha e encolheu os ombros.

_Que bom. Será uma vida nova para nós dois. _ eu disse e percebi que havia uma dupla possibilidade de interpretação do que eu falara. Tanto poderia ser “os dois felizes separadamente” ou “os dois juntos”.

_Me dá um frio na barriga, um certo medo... _ ela riu, agitando a cabeça e as mãos. Sempre fazia isso, quando estava muito ansiosa com algo.

_Isso é bom, é o que dá sentido a vida... Quando as nossas primeiras vezes começam com um friozinho. _ sorri-lhe. _Imagino que nunca deve ter se mudado.

_Nunca fiz tantas coisas... _ confessou sem pensar e, de vergonha, se abaixou para voltar à arrumação.

_Fala para o Juanito deixar um pouco de ração para mim! _ pedi, enquanto caminhava para o banheiro.

***

A viagem foi longa e Jeni me deu um bom trabalho. Ficou enjoada, não conseguia dormir, enfim, se eu tivesse viajado sozinho teria me fadigado menos.

Mas um fato marcou o nosso trajeto: a morte do peixe sem nome. Jeni carregou o bicho em seu colo todo o tempo. Quando paramos para almoçar, eu disse que era melhor trazê-lo, pois poderia cozinhar dentro do carro fechado e quente. Ao sair, ela pisou em falso no paralelepípedo e o aquário se espatifou no chão. Dava um cardume inteiro em suas mãos para que ela repetisse inúmeras vezes à cara de desolação que fez misturada com medo de eu brigar com ela.

_Tudo bem... Eu não gostava dele tanto quanto você gostava do Fred. _ eu falei-lhe, vendo o peixe se debater a última vez no chão quente.

_Não foi com intenção, Ruan. _ ela defendeu-se.

_Eu sei que não. _ sorri-lhe.

_Você está tão sério. _ comentou, quando já estávamos sentados comendo. _ Foi por causa do peixe?

_Não. Também. _ enrolei o macarrão no garfo. _ Eu fiquei pensando em como na vida há pessoas significativas, que quando perdemos é ruim... _ continuei girando o garfo em torno do macarrão em um processo sem fim. _ E outras não significam nada e podemos deixá-las para trás.

_Eu sei que o Fred não era uma pessoa, mas foi bem assim. _ falou-me. Sabia que uma hora acabaria fazendo aquela comparação._ Doeu perdê-lo.Mas a quem você se refere, Ruan? _ perguntou-me.

_Deixa para lá. _ enfiei finalmente o macarrão na boca.

_Quando eu estava colocando os livros na caixa... Eu vi um porta-retrato de uma senhora na sua mesa... É sua mãe?

_Sim. _ ri.

_Por que você riu?

_Ela é uma mulher... Hum... Supermoderna. Moderninha demais. _ disse-lhe. _Ainda bem que está lá e eu cá. Ela iria me fazer eu tirar a cueca aqui para ver se está limpa, não tem pudores.

_Ia ser divertido.

_Tirar a cueca aqui?

_Não..._ riu. _ Conhecer sua mãe!

_Você vai se arrepender do que está dizendo, mocinha! _ avisei-lhe apontando o dedo indicador que segurava o garfo.

Jeni sorriu e seus lábios rosados esticaram até o máximo que a elasticidade de sua boca permitia, emoldurados pelas bochechas rosadas. Suas sobrancelhas grossas e negras se uniam, quando não entendiam o que eu dizia.

Assim eu ia escrevendo mentalmente um livro sobre os códigos de Jeniffer.

Assim que chegamos, só tínhamos caixas espalhadas por toda parte da casa espaçosa. Fazia um intenso calor na cidade do Rio de Janeiro e nem a chuva que começou a cair melhorou a sensação térmica, pelo contrário, só fez ficar mais abafado.

Forramos os dois colchões e deitamos, cansados.

_Ruan...

_Hum. _ virei-me de lado e olhei-a. O vento que entrou pela janela arremessou um facho de fios do seu cabelo negro para frente.

_E nossa aula de violão, esqueceu? _ perguntou, indo procurar onde estava o instrumento.

_Agora?! _ perguntei, virando o rosto para o outro lado, para segui-la com os olhos.

_Tudo bem, eu vou deixar você faltar à aula, mas saiba que isso não é muito bom para a imagem de um professor. _ ela falou sério, para dramatizar suas brincadeiras comigo.

Sentou-se no colchão novamente e suas pernas cruzadas ficaram na altura dos meus olhos. Os finos pêlos eram dourados e se perdiam na pele branca, perfeitamente ajustado a sua delicadeza. Será que ela os descolorava ou era da ordem da sua própria natureza?

_Você não vai tocar Vanessa Camargo para eu dormir não, né? _ perguntei, com a voz meio abafada pelo travesseiro.

Ela parou uns segundos o dedo nas cordas e só levantou os olhos para mim. Não me respondeu.

_Por que você toma remédio para dormir? _ perguntou sem rodeios.

_Porque um dia... Uma menina como você jogou um feitiço perverso que tirou o meu sono para sempre... _ falei-lhe em tom de conto de fadas para deixar em aberto a veracidade daquela versão.

_E o que se faz para quebrar o feitiço?

_..._ dei de ombros. _Tomar um bom sonífero?

_...Você toma remédios para depressão. _ ela fez uma leve careta.

_Como sabe?

_Meu padrasto tinha depressão.

_E você anda revirando as minhas coisas!

_Alguém tinha que colocar aquilo em uma caixa!

_Nem todas as pessoas são perfeitamente sãs.

_Eu sou.

_Tem certeza? _ perguntei.

_Como você faz isso?

_Isso o quê?

_Consegue sempre armar uma armadilha na sua argumentação para eu ficar presa pelo pé, de cabeça para baixo.

Eu ri da idéia, imaginei-a de cabeça para baixo.

_São os anos. Mas, às vezes, eles não servem para nada.

_Como, por exemplo...? _apoiou o cotovelo no joelho direito flexionado.

Quando você me olha desse jeito e eu tenho vontade de te beijar, mesmo sabendo com minha experiência que não devo me encantar por garotinhas como você, porque já passei da idade, e nem assim aprendo.

_Você não disse que ia tocar.

_Eu não disse. _ corrigiu.

_Quem te ensinou a tocar?_ perguntei.

_Fiz um cursinho, na igreja. _ respondeu.

_Legal. Eu aprendi com um sargento da banda do quartel que me deu umas aulas.

_Eu tinha um violão, mas fui assaltada e me levaram ele. Não sei se o ladrão gostou muito, porque não era um dos melhores.

Rimos juntos.

_O que você gosta de cantar? _ usei o verbo “cantar”, porque achei que era mais apropriado para o que ela realmente gostava de fazer. O violão para mim era o fim maior, gostava de ouvir as notas. Jeni ia além delas, era o próprio corpo da música.

_Como é aquela música? “I can’t take my eyes of you”. Como começa?... _ pôs a mão na testa.

_Deixa eu ver se lembro. _ sentei-me ao seu lado, no seu colchão de solteiro e peguei o violão. _
And so it is/ Just like you said it would be/ Life goes easy on me/ Most of the time/ And so it is/ The shorter story/ No love, no glory/No hero in her sky/ I can't take my eyes off of you/ I can't take my eyes off you…”

_Não era essa. _ ela falou baixinho.

_Não?_ parei. _ É daquele filme Closer, The Blowers Daughter, quem canta é o Damien Rice.

_Ãnh-ãnh. _ balançou a cabeça para os lados, sorrindo, percebi que tínhamos entrado na zona do desafio.

_Que tal essa...
“You're just too good to be true / Can't take my eyes off of you/ You'd be like heaven to touch/ I wanna hold you so much/ At long last love has arrived/ And I thank God I'm alive/ You're just too good to be true/ Can't take my eyes off of you…”

Jeni balançou a cabeça em negativa outra vez e jogou-a para trás, rindo.

_Como não? É daquele filme “As dez coisas que eu odeio em você”, se eu não me engano a música é do Andy Williams._ expliquei-lhe.

_Você não vai saber, Ruan, desiste!

_Ok! _ devolvi o violão, meio frustrado, eu jurava que era aquela, poxa, vinha de um filme adolescente!

_É assim..._ ela mordeu o lábio faceira.

Cruzei os braços e esperei que ela me surpreendesse.

_ “Ya never know what you're gonna feel, oh/ Ya never see it comin' suddenly it's real / Oh, never even crossed my mind, no/ That I would ever end up here tonight/ All things change/ When you don't expect them to/ No one knows / What the future's gonna do/ I never even noticed /That you've been there all along /I can't take my eyes off of you / I know you feel the same way too, yeah /I can't take my eyes off of you / All it took . . . Was one look /For a dream come true”…

Eu levantei as sobrancelhas e meus braços se descruzaram lentamente. Os som das notas rápidas alegram todo o ambiente. Ela tinha um desembaraço surpreendente para cantar, cheia de expressão corporal.

_Que música é essa?!_ perguntei.

_É de um filme...

_De um filme?! Qual?!_ insisti.

_Ruan, você não conhece, já disse. _ ela deixou o violão de lado, no chão e suspirou. A luz que entrava pela janela iluminou a lateral do seu rosto.

_Como não?...

_Não faz o seu tipo. _ ela deitou de bruços. _ Desiste.

_Ok, eu vou dormir curioso?

_Ruan... desiste.

_Jeniii... _ voltei para meu colchão e deitei também.

_High School Musical. _ disse, quando eu já havia desistido de insistir. Jeni sempre me dava de bom agrado o que eu queria, quando eu já não mostrava mais interesse.

Claro! Como não pude pensar nisso? Óbvio que era um filme fora do meu repertório. Mas não do de Jeni. Seu quarto mostrava que aquele realmente era seu território. As paredes repletas de pôsteres de artistas do mundo teen e revistas de adolescentes empilhavam uma prateleira inteira do armário.

Ela dormiu e eu fiquei com as últimas frases daquela música na cabeça:

“Você nunca sabe o que vai sentir, oh/ Você nunca vê chegando e de repente é real/ Oh, nem passou pela minha cabeça, não/ Que eu estaria aqui esta noite/ Todas as coisas mudam/Quando você menos espera/ ninguém sabe/ que o futuro vai fazer/ Eu nunca nem reparei/ Que você esteve este tempo todo aqui”


Autora: Li

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13 comentários:

Li disse...

Ufa...
Corre para lá, corre para cá e consigo vir dar um pulo aqui para publicar.
** correndo de novo **

Meninas, beijocas!!!!!!

Li (sempre *correndo* daqui a pouco viro a "Forrest Girl" hahahha)

aninha disse...

eeeeeeeeee!!!!!! primeirinha a postar dessa vez!!!!!! guria, levantei cedinho pra ver o capitulo novo!!!!!rsrsrss!!!!! to amando essa história!!!!!!

mellzinhaaa disse...

aaii lii..
naum mata mais os bichinhos na estoria :/
eh serio... fico tri mal com isso!
(eu tive dois peixinhos uma vez... conversava com eles e tudo! no dia q eles morreram, eu chorei mto². a minha mae queria dar pro meu gato comer... imaginem? ¬¬ obviu q eu naum deixei, dae coloquei eles dentro de uma caixinha e enterrei!)

eu to adorando o livro! fico imaginando as cenas! hehehe
naum vou mto com a lata do ruan!
mas acho q com o tempo vou superar isso =)
hashushshashu
bju li linda =*****

Li disse...

:) Eu tive uma rolinha ( de verdade hahahahah adoro trocadilhos) hahahha... ela caiu no meu quintal. Ai o gato comeu a asinha dela. Bom cuidei dela por anos, ai meu irmão um dia veio correndo não viu e pláft, fez patê da rolinha, pisou em cima. enfim? tive que enterrar no jardim, com direito a cruz e muito choro.
tive um cachorro tb, que de tanto latir, os vizinhos deram pão com caco de vidro...
mel, eu tb odeio o ruan! feio!
let's go...

beijos!

Lucy disse...

Gente... eu vou chorar em todos os capítulos. E, desculpem-me, mas eu gosto do Ruan e oficializo minha torcida para que ela fique com ele. =)

Ainda nao vi o garoto da internet, mas já imagino como ele deve ser... de qq forma, como não sou parâmetro pra ninguém, eu só digo que o Ruan é ótimo (apesar dos defeitos que ele tem que ainda não foram completamente revelados). Ninguém é perfeito, o importante é encontrar aquele não-perfeito que vc queira amar, aliás, aquele que conquista seu coração porque o coração dele liga-se ao seu - independente das barreiras e de todo o resto. =)

Enfim... Eli, eu não sabia que esse livro seria tão gostoso de ler... um grande bjo e obrigada por nos mover os sentimentos com suas estórias! =)

Li disse...

:) BJIIInhos a todas

aninha disse...

esses bichinhos da história mexem comigo... faz lembrar a minha jucy linda... minha cachorrinha que viveu comigo oito anos!!! saudade imensa dela!!!!!!

Ana Carolina disse...

li...não mata mais os bichinhos!! eu tive vontade de espnacar o ruan quando ele matou o fred...ai se é comigo!O bruno nem se mete a fazer maldade com nenhum dos meus bichinhos!!rsrsrsrsrs...tbm gostei do ruan!e a nossa jeni parece que vai dar é trabalho!!!beijinhos!!!

Li disse...

GENTE NÃO FUI EU QUEM MATOU :(
FOI O RUAN :p HAHAHA
BEIJOCAS LINDAS!

Nati disse...

Poxa, poxa...Por que vc mata os bichinhos?? O que vc tem contra eles? =(

Nati disse...

Agora que eu percebi o que a data no blog tah errada...E eu achando que estava um ano atrasada...hahahaha

titta_* disse...

ai tadinho do peixinho....=õ(


(e eu vou me abster de comentários a respeito do estilo musical da Jeni ao menos até vê se as coisas melhoram por aqui....=P Li,a pré-adolescente q vive em vc tá inspirada,heim?! kkkkkkkkkkk..)

titta_* disse...

ai tadinho do peixinho....=õ(


(e eu vou me abster de comentários a respeito do estilo musical da Jeni ao menos até vê se as coisas melhoram por aqui....=P Li,a pré-adolescente q vive em vc tá inspirada,heim?! kkkkkkkkkkk..)