13/09/2007

Cap 9: Entre cordas invisíveis (Ruan)

Olhei através da janela do escritório a noite quieta lá fora. Mãos no bolso e cabeça no vidro. Tantas lembranças de um passado morto ainda teimavam reviver na minha mente. O tempo não apaga, apenas guarda o que não queremos que seja presente.

Meu coração adormeceu por tantos anos em uma era glacial que se findou ao encontrar Jeniffer. O calor desse sentimento novo derreteu a dureza da alma cristalizada. Novamente voltou a germinar a vida dentro de mim.

Fechei os olhos e senti medo da força motriz daquele amor. Eu não podia amar essa garota. Meu corpo, porém, não continha minha alma, que se precipitava à frente para seguí-la.

Meu amigo Ferreira perguntou-me no churrasco onde eu queria chegar com aquele romance impossível. Não tive resposta exata para lhe dar, mas disse-lhe que já a algumas noites não preciso de remédios para dormir. Ferreira dimensionou aí as proporções do meu amor por essa criatura de olhos de mel.

Meu amigo fez-me ver que eu estava em uma corda bamba entre dois arranha céus, qualquer queda seria fatal.

Queria poder fazer o meu coração parar de pulsar tão forte por ela quando está perto de mim. Mas, eu não tinha como abandoná-la agora. Jeni precisava de mim.

Minha única saída era tentar enganar-me.

Foi assim que, hoje, reencontrei Virgínia, uma antiga amiga de quando eu viera pela primeira vez para essa cidade.

Nos conhecemos em um bar, dali fomos para cama e nunca passamos disso. Minha relação com ela sempre fora extra corpo.

Virgínia me amou algumas dezenas de reais e eu contentava-me com isso, com alguém que não precisasse demandar nada além de umas notas.

Encontrei-a trabalhando no mesmo bar, nessa tarde. Quando me viu, deu um gritinho e um beijo rápido na minha boca, sem rodeios, sem cerimônias.

_Meu Deus, como você está bem! _ sentou-se à mesa comigo.

Conversamos no tempo de duas rodadas e fomos para seu apartamento na rua de trás. Matamos a saudade e ela, todo o dinheiro do fim de semana que eu havia sacado do caixa eletrônico.

Depois do prazer saciado, Virgínia ficou roendo o esmalte vermelho de sua unha e eu sentei-me em uma cadeira próximo à janela.

_Você continua o mesmo de quando te conheci! É só acabar para correr para a janela e ficar calado. Quem, dessa vez, é a dona da sua tristeza?

_Ninguém. _ respondi-lhe.

Ela disse “dessa vez” porque Virgínia conhecera-me quando eu acabara um namoro de quatro anos.

_Então, vem para cá, gostosão. _ bateu no colchão e sorriu com sua boca carnuda. Mostrou-me provocativa suas pernas mulatas para fora do lençol.

Levantei-me da cadeira e voltei para a cama. Ela sabia fazer bem o que se propunha, mas não deixava-me nenhum elo de ligação. Ao contrário de Jeniffer, que parecia unida a mim por cordas invisíveis.

Meu corpo naquela noite estava calmo, já bem servido por Virgínia, mas minha alma debatia-se inquieta com a idéia de querer Jeni.

Olhei para o meu violão e sentei no sofá para tocá-lo. Meu coração se expressava melhor através das notas musicais.

Folheei minha pasta com as cifras que eu imprimira da Internet.

Afinei o instrumento e comecei a tocar:

_I can't believe this moment's come / It's so incredible that we're alone / There's so much to be said and done / It's impossible not to be overcome/ Will you forgive me if I feel this way/ Cuz we've just met - tell me that's OK/ So take this feeling'n make it grow/ Never let it - never let it go(Don't let go of the things you believe in)/ You give me something that I can believe in / (Don't let go of this moment in time)/ Go of this moment in time / (Don't let go of things that you're feeling)/ I can't explain the things that I'm feeling/(Don't let go)


Jeniffer deu uma leve batidinha na porta para chamar a minha atenção e eu parei de tocar.

_Posso entrar? _ perguntou.

_Claro, entra. _ respondi.

Ela sorriu. Estava com o cabelo molhado, cheirando a xampu de frutas. Jeni caminhou na minha direção e chegando bem perto, inclinou-se para pegar a pasta que estava do meu lado esquerdo. Seu cabelo, levemente, roçou as minhas bochechas e eu pude ver o seu seio por um reflexo de segundos no decote do seu vestido verde, ou talvez tenha sido a força do meu pensamento. Depois de provocar aquela abrupta erupção no centro do meu corpo, ela deixou-se jogar no sofá, sentada sobre uma das pernas. Eu ainda abraçado ao violão, observei-a.

_Continue, não quis atrapalhar… _ ela pediu. _ Ah! A cifra, desculpe! Você estava tocando essa aqui... Você é fan do Bryan Adams, hen?! _ fez um beicinho e o engoliu para dentro da boca com uma breve mordida. _ Anda, Ruan! _ empurrou meu braço.

Eu olhei para frente, sorri e balancei a cabeça para os lados, voltei à cifra.

_No, I won't let go now would you mind if I bared my soul/If I came right out and said you're beautiful/ Cuz there's something here I can't explain/I feel I'm diving into driving rain/ You get my senses running wild/I can 't resist your sweet, sweet smile/So take this feeling 'n make it grow/Never let it - never let it go/ I've been waiting all my life/To make this moment feel so right/ The feel of you just fills the night/So c'mon -just hold on tight.

_Não conhecia essa. _ ela encostou a cabeça em uma das mãos. Seu braço estava apoiado no encosto do sofá e seu rosto muito perto do meu.

_Eu posso te ensinar essas, tem outras também...

_Eu sei que vou aprender muitas coisas com você. _ disse-me. _ Mas, você vai fazer comigo o que faz com seus alunos?

_Como assim...?

_Pro chão! _ gritou e imitou minha voz, com caretas. _ Agora, flexão, vamos lá... _ ordenou para uma pessoa imaginária a nossa frente. _ Mais rápido, com uma mão só!

_Pior! _ deixei o violão no chão, apoiado no pé de ferro. _ Eu vou usar métodos de tortura.

_É?!

_É. _ peguei seus punhos e os segurei. _ Cada vez que você não acertar... Eu vou te amarrar e... _ fiz cócegas em sua barriga e ela riu até perder a voz e jogou a cabeça para trás. Meu corpo se precipitou sobre o dela. _ Pára, Ruan... Por favor...

Eu parei e nossas respirações estavam ofegantes. Nossos olhos seguiam as pupilas um do outro. A veia do seu pescoço pulsava, indicando que seu coração estava tão disparado quanto o meu.

Na medida em que ela se levantou, eu lentamente me afastei para trás. Jeni tirou o cabelo que estava em sua boca e deu uma leve tossidinha.

_Você disse que queria falar comigo sobre o colégio.

_É. Eu conheço um ótimo colégio aqui. Pensei em pedirmos sua transferência para lá. É o ano do seu vestibular...

_Ruan... eu não tenho...

_Eu vou pagar.

_Não quero que...

_Eu ganhei dinheiro com a minha transferência...

_Ruan, não...

_Jeni. _ toquei nos seus lábios. _ Eu quero.

Ela engoliu em seco.

_Se pensar bem, será uma economia de dinheiro. É melhor pagar de uma vez do que você passar anos fazendo cursinho e depois ter que pagar uma faculdade particular. Acabará saindo em conta.

_É, não tinha pensado nisso. Você tem uma visão mais concreta da vida que eu.

_E o que vai querer fazer na faculdade?

_Eu? Não sei! _ ela riu e franziu a testa. _ Eu tenho que saber agora?

_Tem porque precisará dirigir seus estudos para as provas específicas e não específicas.

_Hum. Mas eu não sei, Ruan...

_Olha, tenta pensar nas matérias que você tem mais afinidades. Só que tem que focar no futuro também, o que vai te dar dinheiro, independência...

Aquela idéia de liberdade que estava passando me fez parar para pensar na possibilidade dela bater asas e voar para longe um dia. Eu estava dando a chave da sua libertação de mim.

_É estranho porque ninguém me perguntou isso a vida toda.

_Eu entendo. _ sorri. _ Já reparou que quando somos crianças nos perguntam “O que você quer ser quando crescer?” O verbo usado é “ser”, como se a criança não “fosse” algo de fato, enquanto criança, só quando chegasse a idade adulta. A criança nada mais é que a narração dos seus pais. Só quando ela cresce que se torna a dona da própria história.

_Você devia ter sido psicólogo. _ ela comentou.

_Há muitas coisas que você “deveria” ser... mas você vai descobrir aquela que “quer” ser.

_Onde eu morava, não tínhamos essa chance, Ruan. Minhas amigas e eu estudávamos para acabar o segundo grau e sabíamos que só nos restaria uma vaga como vendedora ou garçonete. Porque não teríamos dinheiro para estudar mais.

_Agora você tem. Eu quero te dar isso.

_Não sei o que dizer.

_Não diz. _ coloquei minha mão sobre a sua e seu polegar roçou os meus dedos.

Olhamo-nos.


Autora: Li


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11 comentários:

Marga disse...

Oi Li!!!
NOssa! to adorando esse livro! no começo não gostei muiot dele por causa do Fred.... mas até isso eu já estou começando a esquecer de tão querido q ele parece ser....
é engraçado ver um capitão, já todo experiente passando se sentindo todo bobo perto de uma menininha de 17 anos! hehehee!
aiaiai!!! já vi que esse vai viciar também!!!
Bjão Li!!! Parabéns por mais um livro muito bem escrito viu!!

Li disse...

Marga, minha querida leitora! Fica conosco, pega a almofada e senta, porque essa estória vai ser muito gostosa de ler viu?
Beijos!
Li

QUEM QUER MAIS UMA ALMOFADA? VOU JOGAR HEN?????HAHAHAH

*Meninas, me ajudem a divulgar o livro, please, falem para mais pessoas*

aninha disse...

LI, joga a minha almofada!!!! cheguei!!!!!! aiai... vai virar romance!!!!! eles vão se beijar ?? conta mais, conta mais!!!!!

Li disse...

vao?
num sei!
deixa ver eles mesmo contarem

quem quer mais uma almofada?

aninha disse...

aiiiiii!!!!!!! ta me deixando curiosa!!!!!!!

Tita disse...

Eu quero uma também!! (tia Li? uehauhea =9)
To sem idéia pra comentário hoje então só passei pra pegar minha almofada mesmo. hehehe
Beijooo!

Lucy disse...

Aiaiai, demorou hein, gente??? Eu já to com 5 almofadas aqui, uma em cada membro do corpo e outra debaixo da cabeça. Mas já baguncei tudo só por causa da parte de clímax que tem nos capítulos!!! Aaaaai, eu grito e jogo as almofadas pro ar!!! \o/

Gente, que emocionanteeeeeeeeeeeeee!!!! Tá ficando ótimo!!! Eu to chorando ou lagrimando a cada capítulo, gente!!! É muito lindo!!! Liiiiiii!!!! Aiaiai *suspiro forte* aiaiaiiiiiiiii!!! Tá igualzinho, garotaaaaaa! Eu vou te bater... aliás, te abraçar com carinho pq vc escreve MUUUUUUITO, garota!!! Tá me deixando emocionada, viu???

Poutz! Quando eu crescer, quero conseguir descrever tão bem uma cena quanto vc! Caraca, que insano a cena da música, cara! Eu consegui imaginar tudinho!!! O cabelo na boca... os olhos seguindo um ao outro... caracaaaaaaaaaa!!! \o/

Bjooooooooo, tia Li!!!

Lucy disse...

Ahhhhhhhh, esqueci de dizer: o jeito poético está me deixando sem ar!!! \o/

Nati disse...

Nossa, nossa...Tah emocionante demais.
Quero minha almofada tb!!!! \o/

Putz, comecei hj e to quase no capitulo do dia...rs.
To no trabalho e nem consigo trabalhar...rs

Beijosss =**

Nathália disse...

Peguei a minha almofada!!
E to indo em frente, quem consegue dormir com os capitulos emocionantes pela frente?? Só páro qndo acabar!!

Bjão

titta_* disse...

hhmmm...não disse!? não disse!? =X
sabia que eu ia me identificar com o Ruan...=P ensina pra Jeni! =)

agora já era! tou amando e viciadissima..#) mas ainda sinto falta do Caio e da Bela =/
Mas a Jeni é tão espirituosa, tão engraçada...

parabéns + uma vez,Li!
=*******
(eu volto amh! vou estudar agora! =**)