12/09/2007

Cap 8: Fora da Grande Família (Jeni)

Ruan era sábio para algumas coisas e para outras eu me sentia à sua frente. Talvez, no fundo, nenhum dos dois estava certo ou errado, só tínhamos lógicas diferentes de enfrentar a vida. O fato é que passávamos um bom tempo para convencer-nos de quem era o melhor ângulo.

Após a arrumação de toda a mudança, fomos convidados para um churrasco na casa de um amigo de Ruan que foi seu colega de turma. Estávamos justamente no caminho quando começamos a discutir sobre qual explicação dar a respeito dos nossos laços de ligação.

_Jeni, você não parece nenhum pouco preocupada! _ chamou-me a atenção. Acho que meus fones de ouvido o irritavam. Tirei-os.

_Ruan, eu não me preocupo tanto com o que as pessoas pensam quanto você.

_Jeni, você não entende. Eu sou uma pessoa pública, não gosto que fiquem fazendo fofoquinha nas minhas costas.

_Esse é um tipo de preocupação de mulher, nunca vi homem se ligar nisso...

_Você ainda sabe pouco da vida. _ ele balançou a cabeça para os lados e continuou dirigindo. Já que ele sabia tudo, eu podia colocar meus fones no ouvido outra vez. _ Com o tempo vai perceber que a maior atingida pelas fofocas será você.

_Ruan, eu não estou nem aí para o que pensem de mim. Eu tenho plena consciência de que somos só amigos. Eu fiquei sem ninguém no mundo e você tentou me ajudar. Puxa, te agradeço muito por isso, o que mais quer de mim? _ perguntei, já sem humor para aquele assunto.

Eu não estava sendo ingrata, só não entendia que grande preocupação era essa a dele. Por mim, ele poderia falar a verdade e foi isso que lhe aconselhei.

_Então, eu devo dizer para todos que sou o seu tutor? Eles vão ficar me perguntando qual o meu interesse Ninguém vai acreditar que eu quis te ajudar por nada.

_E ninguém precisa acreditar em uma mentira.

Ruan virou o rosto para mim e franziu a testa, havíamos acabado de parar no nosso destino e ainda não tínhamos colocado um ponto final naquela divergência.

_O que acha que eu quero de você?

_Ruan, ninguém faz nada de graça nessa vida. Você quer justamente ter alguém do seu lado para mostrar para a sociedade. Eu não sou bem o padrão para isso, mas quem sabe cumpra o papel em forma de reconhecimento pelo apoio que me deu.

Ele continuou a me olhar sem reação.

_Eu sei que você sempre se sentiu sozinho e por isso precisa de uma companhia. _ disse-lhe. _ Eu também estava sozinha, claro que por outras circunstâncias. Daí, você pensou: "opa, porque não somar duas solidões para ver se dá em uma vida menos vazia para ambos?" _ como ele não concordou nem discordou de nada, prossegui. _ É que você faz mil rodeios, filosofa demais para enxergar o que para mim é óbvio. Eu não fico me debatendo contra a realidade. Se ela é assim, bom, vamos em frente. Ruan, não precisamos mentir, podemos dizer a verdade, mas sei que isso é pedir muito para você. Bom, depois de tudo que me fez, só me resta, então, ser sua cúmplice.

_É você mesmo nesse corpo ou seu alter ego acordou e...

_Ruan, eu só tenho carinha de anjo.

Acho que o assustei e, pela primeira vez, ele repensou se tinha feito a escolha certa. Já que sua cabeça funcionava como um rolo de filmes e seus olhos eram as lâmpadas de um projetor, aposto que agora via em mim a imagem daquelas garotinhas ingênuas que seduzem o mocinho e depois correm atrás dele para assassiná-lo e destruir sua vida.

Mas, eu sabia que não estava saindo de nenhum filme de terror, só que Ruan não tinha ainda essa visão do meu lado maduro. Eu não lhe mostrara tudo que posso ser, pois sempre esteve ali para fazer o que era preciso para me proteger. Desse modo, eu estive livre para só ser a menina.

_Isso tudo quer dizer o quê? _ perguntou.

_Se para você é melhor que pareçamos um casal, pouco me importa, eu sei que não somos e nem vamos ser e pronto. Fica mais fácil assim? Ninguém te fará pergunta alguma e ficamos em paz. _ encolhi os ombros.

_E a diferença de idade?

_Ah! Ruan! _ abri a porta.

_Jeni, eu... _ ele deu a volta no carro correndo e me segurou pelos braços. _ Sei que você está vendo tudo isso com uma facilidade quase assustadora, mas esse joguinho de disfarce é perigoso.

_Ruan, você está com medo de quê, melhor, de quem? Não vai mudar nada entre nós, nada mesmo. Continuamos assim, bons amigos e pronto. Relaxa.

_Ruan! _ouvimos uma voz feminina atrás de nós, virei-me e vi que uma mulher se aproximava. Parecia ter trinta anos, tinha o cabelo loiro preso em um coque e era gordinha. _ O que vocês estão fazendo aqui fora?

_Oi, Sarita. _ Ruan cumprimentou-a. _ Essa é a Jeniffer.

_Prazer, Jeniffer. _ ela deu-me dois beijinhos na bochecha e nos convidou para entrar.

_Prazer. _ sorri e respondi.

Ruan colocou a mão esquerda nas minhas costas para que eu passasse na sua frente pelo portão de madeira.

A casa era pequena, pintada de azul e com um estilo muito antigo. Tinha um jardim na frente. Entramos pela lateral e chegamos na área dos fundos, onde estava acontecendo o churrasco.

Vários homens se levantaram e vieram cumprimentar Ruan. Neste momento, percebi tudo o que ele quis dizer com o temor dos seus olhos e de suas palavras, há alguns minutos atrás.

Todos olhavam para mim como se eu fosse uma aberração da natureza. As mulheres me analisavam de cima abaixo. Senti-me envergonhada dentro do vestido florido e dos sapatos de boneca. Será que eu estava feia? Os amigos de Ruan, após cumprimentá-lo com ruidosos apertos de mão e tapinhas nas costas, olhavam-me, depois voltavam a olhar para Ruan, inquirindo silenciosamente uma explicação para ele estar comigo.

Senti um estado de pânico instalando-se em mim. Minhas mãos suavam e um calor estranho começou a elevar a temperatura do meu corpo.

_Ruan. _ segurei o seu braço. _ Eu não estou me sentindo bem... _ falei baixinho, disfarçadamente.

_Eu não devia ter te trazido... _ ele fez-me sentar. _ As suas palavras são muito bonitas, mas eu sei o que é a prática. _ falou, meio irritado, não comigo, mas com a situação. _ Sarita, pega para mim uma carne com um pouco mais de sal? _ pediu, falando um pouco mais baixo para não chamar atenção.

_Que foi? Ela está se sentindo mal? _ Sarita percebeu pela minha cara que eu não parecia bem.

_Nada demais. _ ele fez pouco caso.

Ela foi até algumas mulheres próximas à mesa de comida e senti mais uma vez que elas olhavam-me.

_Ótimo! Ela deve ter falado que eu estou grávida, tive uma queda de pressão e você ficou comigo para assumir o filho que tivemos por acidente... _ disse-lhe.

_Jeni, olha para mim. _ ele pediu, colocando a mão em volta do encosto da minha cadeira. _ Esquece essas mulheres, elas não importam. Não se misture com elas...

_Por que está dizendo isso? _ franzi a testa.

_É melhor você não saber. _ ele afastou o cabelo do meu rosto e beijou minha bochecha.

_Aqui está. _ ela deixou o prato na mesa.

Eu olhei para a carne sangrando e senti enjôo. Não queria comer nada daquilo.

Os homens tomaram completamente a atenção de Ruan. Eles só falavam sobre as atividades militares e cada um contou um pouco do que fizera nos períodos de transferências.

Eu continuei ali, parada, em silêncio. Foi o meu primeiro contato com o microcosmo da "Grande Família Militar".

Levantei-me para pegar um pouco de refrigerante. Queria respirar.

_Jeniffer seu nome, não é? _ Sarita perguntou.

_É. _ fiz sinal com a cabeça e bebi um gole do guaraná.

_Venha ficar com a gente. _ convidou-me.

Sentei-me no círculo das mulheres e dei um leve sorriso para todas.

_Você está bem agora? _ uma delas me perguntou. _ A Sarita me falou que você não estava bem.

_Estou. _ respondi com mais um sorriso.

Ali não havia nada que uma não contava para as outras. Era um grupo fechado tão cheio de regras e normas quanto o lado oposto masculino. Eu não estava dentro do perfil delas. Isso transformava-me numa alegoria atrativa.

_Você parece ser nova, quantos anos tem? _ perguntou Sarita, tomando a frente da conversa.

_17, vou fazer 18 mês que vem. _ respondi.

Elas ficaram caladas e entreolharam-se.

_Você estuda? _ perguntou uma delas com um filho no colo.

_É, vou tentar vestibular esse ano.

_Você tem 17 anos e... está com Ruan há quanto tempo?

_É o tribunal da inquisição? _ ouvi a voz de Ruan atrás de mim. Senti um alívio.

Elas riram e saíram da posição de ataque.

Ruan abraçou-me por trás e beijo-me o rosto.

_Está tudo bem? _ perguntou.

_Está sim. _ respondi, segurando sua mão para que não me soltasse.

Se eu soubesse que seria aquele massacre, teria pedido para Ruan dar meia volta e me deixado em casa. Nada fora tão simples como eu lhe dissera que seria, agora entendia sobre o que Ruan tentara advertir-me. Eu não era bem vinda naquele mundo, nem seria entendida por aquelas pessoas, nunca.

Chegando em casa, fui para o meu quarto. Sentei no sofá de dois lugares que Ruan colocara ali abaixo da janela e fiquei olhando através do vidro a rua vazia. Um soldado ao longe varria a rua e recolhia as folhas das árvores. Parou, fumou, voltou a varrer.

Abracei minhas pernas e encostei meu queixo nos joelhos. Eu estava longe de tudo que me era seguro: minha casa, meus poucos amigos, o colégio, meu Fred. Ao mesmo tempo, estranhamente nunca me senti tão pertencente a um lar. Ali, eu tinha meu lugar e não sentia que o perderia. Sempre tive medo de que meu padrasto, um dia, me expulsasse de casa, por mais que gostasse de mim, eu não era sua filha. Ruan não, ele cuidava de mim com um carinho paternal que me aquecia o coração.

Deitei e coloquei uma almofada abaixo da minha cabeça. Fechei os olhos. O que seria de mim de agora em diante? A namorada de mentira de Ruan? Mas, eu precisava achar meu grande amor logo, não atravessaria o muro dos 20 sem ter tido história para contar.

Suspirei. Eu queria sentir um frio na barriga, ganhar um beijo de arrebatar o coração, como naqueles dos filmes. Para isso, eu precisaria ir além da fortaleza dessa vila e ver o que o mundo lá fora reserva. Aprender a aliar a prática à teoria.

Na vida, passamos por três processos. Primeiro, não sabemos o que fazer. Depois, sabemos o que fazer. E, por último, fazemos. Eu agora estava exatamente estacionada na etapa dois: conhecia tudo na teoria, queria logo colocar em prática. Batia uma agonia ver que o tempo passava e eu ficava para trás.

Eu não queria continuar achatada dentro da casca, precisava arrebentá-la e sair. Só que como a tartaruguinha sem força para sair do buraco da areia, eu tinha que ter uma mão para puxar-me e mostrar-me o oceano no horizonte. Minha mãe nunca fora essa mão, muito menos meu padrasto. Ruan fizera isso por mim.

Agora eu tinha que caminhar aos tropeços pela longa orla de areia e atirar-me na água, que é o meu destino, a vida adulta. Se eu continuar no buraco, vou morrer. Preciso ganhar a liberdade.

Sentei-me à frente do meu computador já montado e liguei-o.

Eu precisava sair um pouco da realidade. Conectei a internet e entrei no site do uol, atraída pelo resultado da votação que decidiria o mandato do presidente do senado, já que esse fora o assunto quente de todo o churrasco.

_ “Renan escapa de cassação por 40 a 35”. _ li a manchete. _ Tudo acaba em pizza no Brasil. _ ri irônica e balancei a cabeça para os lados, decepcionada.

Olhei para os links no menu do lado esquerdo e vi a opção “bate-papo”. Depois escolhi a sala por “idade” e, finalmente, entrei como “Jeni” logo na primeira sala, que era de pessoas de 15 a 20 anos.

_Que está fazendo, mocinha? _ Ruan apareceu atrás de mim, assustando-me.

_Nada de mais, de bobeira. _ respondi.

_Tá bom, então, só queria saber se está bem. Eu vou para o escritório fazer meus trabalhos. Depois temos que conversar sobre seu colégio, hen?

_Claro. _ consenti com a cabeça e ele fechou a porta para o barulho do som não atrapalhá-lo.


Autora: Li


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7 comentários:

Li disse...

silêncio por aqui...?

Anônimo disse...

to chegando na área!!!!!! Li, vou comenar em anônimo hoje... vc sabe quem eu sou...caraca... é horrível essa sensação que a jeni teve... fui uma única vez a um churrasco desses para nunca mais!!!!!!! as mulheres me olhavam de cima em baixo... todas falando dos preços de supermercado, filhos.... um universo que eu não conheço e nem quero conhecer por enquanto!!! quando comecei a falar da faculdade, seminários, congressos, intercâmbios culturais... elas me disseram:
"termine seu namoro, vc naõ serve para ser mulher de militar!!"
e quando eu disse que eu odeio limpar casa que pago uma diarista pra isso... imagina... o caldeirão ferveu de vez!!!!
naquele dia consegui a desculpa de que minha cirurgia estava doendo, pois havia operado há um mês e fui embora... nunca mais quis saber dessas reuniões... elas te olham como se vc fosse um ET... muito ruim... desse churrasco apenas duas mulheres se tornaram minhas amigas... entre tantas, somente duas me acolheram...e por causa disso é que surgem os estereótipos qie eu lamento tanto...

Tita disse...

Caramba hein, anônima! São mulheres confundidas pelas formalidades que acabam esquecendo do que realmente importa: A cumplicidade entre as mulheres para enfrentar as dificuldades ao invés de competirem entre si pra ver quem é mais prendada, quem é mais submissa, quem é mulher do militar de patente mais alta. Isso não faz sentido para mim.
Bom.. Mas Li, passando pra dar um oi!
Beijoo

Li disse...

Uau! Adoro ouvir vocês!
Gosto muito de receber vocês aqui.
Beijo Tita, beijo anônima!
Li

Lucy disse...

A Jeni agiu bem diferente... é um novo lado dela que eu nem imaginava que existia. Quebrou um pouco da imagem que eu havia criado na mente, mas vamos ver o q acontece...

Capítulo interessante porque podemos ver como é esse lado oculto das "amizades" entre as esposas dos militares. Não acham estranho como é diferente do que nós somos? Nós: eu, a Eli, a tati, a anônima, e todas as outras namoradas? Nós queremos mais eh a felicidade das outras... sei lá... é outra geração, só pode ser isso. =P

E agora a Jeni vai começar, realmente, a conhecer as cobras da vida... e o Ruan vai ter mto trabalho pela frente. =P

Bjo grande para todas!!! \o/

Nati disse...

O livro está ficando mais intenso a cada capitulo.
Confesso que esse foi o que eu mais gostei...Esse sentimento da Jeni de querer se encontrar, de descobrir seu lugar no mundo...Perfeito!
E o melhor de tudo: nenhum bichinho morreu...rs. Brincadeira, tah??

=**

Nathália disse...

Ai Li, vc me pegou... o sono vindo e eu não consigo parar de ler!! Vou ter q bater ponto aqui sempre!!
To adorando o livro, você é uma excelente escritora!!
Mas confesso q fiquei até com medo dessas esposas aí!! Ainda bem q até agora só conheci a nova geração!!!!
Bjão