08/09/2007

Cap 5: Salva vidas (Ruan)

Jogar xadrez com o grande Lodovico era um instigante passeio mental pelos mais diversos assuntos que, de uma hora para outra, sempre desaguavam nas mulheres, seu tema predileto:

_Não se fazem mais amantes como antigamente. _ ele soltou a baforada de seu charuto e moveu seu cavalo no tabuleiro. _ Podemos dizer que houve três fases. Na primeira, as mulheres sabiam que as amantes existiam e não falavam nada, então, elas serviam como um jantar fora, comer comida diferente...

Eu soltei uma risada e traguei o meu charuto, não acrescentei nenhuma observação, eram rituais sagrados àqueles ciclos de raciocínio do meu velho amigo. Qualquer quebra seria um sacrilégio.

_Depois... _ continuou ele, apoiando uma das mãos na sua bengala de madeira marrom escuro. _ As mulheres ficaram independentes e não toleraram mais isso... _ fez uma careta de desdém e coçou o queixo com a mão que empunhava o charuto. Deu mais uma tragada e olhou para o alto. _ Acho que essa foi a melhor fase, porque era muito mais excitante o proibido. _ riu sozinho ao pronunciar as últimas palavras. _ E agora estamos nessa última fase sem graça. _ voltou sua atenção para o jogo e moveu mais uma peça.

Não perguntei qual era, ele logo diria, bastava dar um tempo para que chegasse ao final dos seus estudos antropológicos sobre as mulheres, que não poderia ser dito a ninguém, exceto a mim, por perigo de linchamento. Ele sabia que eu não era um tipo com pudores, nem moralismos e era capaz de rir de todas as suas idéias subversivas.

_Agora, veja, meu rapaz, elas se unem! Pior! _ ergueu o dedo para o alto, enquanto os outros dois equilibravam seu charuto. _ Elas se unem... _ falou mais baixo. _ contra você!

_Por certo! _ ri novamente. _ Não se deve deixar que elas se conheçam, porque vão sentar e debater nossos defeitos, se bobear, terminam juntas. _ empurrei mais uma peça. _ Xeque-mate.

_Ahhh, seu vigarista, está aprendendo demais comigo! _ desdenhou. _ Quando chegou aqui, mal sabia a diferença entre um cavalo e um peão!

Ele falava como se tivesse passado uma década quando, na verdade, íamos completar dois anos de vizinhança. Lodovico era um militar da reserva já aposentado que conheci no churrasco do meu amigo. Como sou um dos poucos por aqui esquisitamente sozinho, ele vem me fazer companhia no fumo e no copo.

Era um homem alto, moreno, forte, por isso o chamávamos de "o grande". Tinha pouco cabelo e os que ainda se conservavam nas laterais da cabeça eram completamente brancos. Sempre polido, de calça social e camisa bem passada por sua habilidosa e dedicada nora.

_Mas acho que já entramos em uma fase nova. _ Busquei um pouco mais de uísque e ofereci-lhe. Voltei a sentar-me à pequena mesa redonda do canto da sala. _ Agora as amantes querem virar as oficiais e as de boa família andam dando uma de amante. Enfim, as putas não sabem mais o seu lugar... _ traguei o charuto e bebi um pouco.

_Não sabem mesmo... Andam abrindo as pernas para qualquer um na esquina, perdeu a graça. Não há mais pureza. E a televisão... _ apontou para o aparelho. _ é a grande culpada disso. _ balançou a cabeça para os lados. _ Mas agora, parando de falar das putas, faltam mulheres para grandes amores. Não dá para ficar abalado por uma frangotinha dessas que beija quatro na mesma noite, pulando de puleiro em puleiro. Eu vejo isso nos bailes... _ apontou em direção a porta da rua.

_Nenhuma conseguiu roubar meu coração ainda, mas as putas continuam aqui, morando no lado esquerdo do bolso. _ ri alto e propus uma nova partida.

_Você é sábio, rapaz! _ deu uma gargalhada e tossiu. _ Esse fumo ainda me mata, mas está na hora mesmo. _ Deu de ombros. _ Agora me diga de verdade, nunca amou?

Eu fiquei olhando a fumaça saindo pela minha boca e se dissolvendo no ar. Aquela pergunta não era nada divertida.

_Já, já amei. Mas ela foi embora... _ falei com um tom grave que mudou o clima daquela conversa.

_Ah! O amor de minha Esmeralda. _ ele suspirou. _ Ela era belíssima. Cabelos loiros sempre bem arrumados e a boca pintada para quando eu chegasse. Seus olhos azuis, grandes, vivos, poderiam me pedir o que quisesse que eu lhe daria. Era uma
Ingrid Bergman. _ Ludovico podia falar com humor das muitas mulheres de sua juventude, mas nenhuma vez deixava de citar sua falecida, e única esposa, com lágrimas nos olhos. _ Filho, quando você encontrar uma grande mulher, se entregue a ela e abandone a farra das outras porque vai descobrir nela todas as mulheres do mundo.

_Será que ela anda por aí com uma placa: “Procura-se o Ruan”? _ perguntei, meio descrente, arrumando as peças do tabuleiro.

Ouvi três pancadas à porta.

_Deve ser ela com a placa! _ ele riu, movendo sua peça.

_Será? _ ri também e abri a porta.

Assustei-me com o que vi. Era Jeniffer, completamente molhada e descalça.

_Eles querem me matar... _ falou transtornada.

Fechei a porta da sala. Eu ainda não tinha falado de Jeniffer para Lodovico. Não queria enquadrá-la nas nossas conversas futuras. Só de olhar para ela, impedia-me de tal idéia.

_Eles quem? _ perguntei, observando seu estado enquanto esperava a resposta.

_Acho que são agiotas para quem meu padrasto devia. Eles entraram em casa atirando, invadiram e...

_Calma, calma. _ pedi-lhe e toquei no seu braço para que parasse de gesticular, ela estava completamente gelada, como um cadáver. _ Por que você está assim, toda molhada?

_Eu me escondi dentro de uma caixa d’água, quando eles entraram, não me viram, mas eles sabem que eu sou filha dele e vão querer me cobrar. Socorro, Ruan, me protege. Eles levaram um monte de coisa e vão querer me levar, não posso voltar para lá...

_Calma, você está comigo agora. Vai pelos fundos, entra pela cozinha. Eu estou com visita, não quero que te vejam assim. Lá na área de serviço há roupas limpas minhas, veste uma coisa seca.

Ela fez que sim com a cabeça.

Entrei novamente. Minha mente começou a cruzar os dados.

“Eu preciso morrer e saber que você vai cuidar dela, você vai cuidar dela...”

A frase do padrasto de Jeniffer fez sentido para mim agora, ele sabia que se morresse e a deixasse sozinha, podiam capturá-la para descontar nela suas dívidas. Por isso precisava de mim para protegê-la. Aqui na vila, ela estaria salva.

_Lodovico, surgiu um pequeno problema para resolver, vamos ter que deixar a sua próxima derrota para depois. _ brinquei.

_Tudo bem, meu rapaz, os velhos como as crianças precisam ir para a cama cedo! _ ele levantou-se e o acompanhei até o portão de sua casa.

Voltei a passos largos e encontrei Jeniffer sentada na cozinha, vestida com uma camisa social de mangas compridas e um short de corrida.

_Você está muito gelada... _ peguei suas mãos e vi que suas unhas e lábios estavam azulados. _ ... Vem comigo. _ puxei-a pela mão e a levei até o meu quarto. _ Precisa se aquecer, deita aqui. _ ordenei.

Abri o guarda-roupa e tirei de dentro uma manta pesada. Enrolei-a e a fiz calçar um par de meias grossas.

_Eu fiquei muito tempo na água... _ disse trêmula.

_Acho que você chegou a um grau muito baixo e agora não está produzindo calor. _ falei mais para mim que para ela. Já havia comandando muitos campos, sabia bem das reações físicas dos meus pelotões às intempéries. Mas, Jeniffer me parecia ainda mais frágil.

Tirei a camisa e ela assustou-se.

_O que vai fazer? _ perguntou-me.

_Eu preciso aquecer você. _ respondi.

_Como assim?

_Jeniffer, olha nos meus olhos. Está olhando? _ agachei-me à sua frente na cama. _ Nenhuma pessoa que vai te fazer algum mal será capaz de te olhar nos olhos. _ expliquei-lhe. Só não acrescentei que apenas os psicopatas tinham essa peculiriadade. _ A porta vai ficar aberta. _ mostrei-lhe. Caminhei até a janela e fechei-a, não poderia deixar passar uma corrente de ar. _ Agora confia em mim. _ pedi.

Fui para o chão e fiz uma série de dez flexões. Eu precisava aquecer os meus músculos e fazê-los produzir o calor que ela necessitava.

_Jeniffer, olha para mim. Está olhando? _ pedi. _ Eu vou abraçar você para te aquecer, tudo bem? Se a sua temperatura permanecer baixa será muito ruim para você. _ deitei-me na cama ao seu lado e a abracei. _ Fique calma, tudo vai voltar ao normal. _ disse-lhe baixinho no ouvido.

O meu corpo começou a emanar calor e equilibrar a temperatura com o dela. Jeniffer se agarrou a mim e suas mãos geladas me provocaram um arrepio, mas eu me contive a não reclamar. Fiquei calado.

Ganhei sua confiança. E depois de vinte minutos, ela voltou à sua temperatura normal e começou a suar.

_Pronto. _ afastei seu cabelo para o lado e o tirei da bochecha. _ Já é a segunda vez que te salvo. _ sorri, sentindo-me um herói.

_Eu acho que tenho sete vidas. _ ela sorriu, encolhida sob a minha manta.

_E gatos preferem leite? _ perguntei.

Ela fez que sim com a cabeça e eu ri da sua doçura. Fui até a cozinha e enchi a leiteira, deixei ferver e levei junto com alguns biscoitos para ela.

_O serviço de quarto é por fora. _ brinquei e ela sentou-se para receber a bandeja.

_Obrigada. _ bebeu o leite segurando a caneca com as duas mãos.

Pude perceber, no inclinar do rosto para dentro da caneca, que ela respirava o cheiro do leite, como se isso também fizesse parte do processo degustativo, e depois, lambia sem pudor o bigodinho branco que lhe marcava acima dos lábios. Aquele brinquinho de furar a orelha de criança azul claro acentuava seu lóbulo redondo. Um leve puxar dos seus olhos amendoados no canto não era defeito, mas um acento relevante em sua beleza. Mulher não pode ser perfeita, precisa de uma marca para se inscrever em nossa mente e olhar de quem suplica ajuda, que nos dá ímpeto de sentir-se um verdadeiro soldado de
Esparta.

Ela tinha esse jeito de quem pede, sem afetamento ou falsidade, mas por uma frágil indefesa do ser.

_Obrigada, mais uma vez... _ ela tocou meu braço, roçando seus dedos sobre meus pêlos e passeando sobre as veias altas. Será que ela intuiu que elevava minha pressão? Espero que tenha ido pelo caminho da conclusão de que tudo se explicava pelo afã do momento e não pela minha, já inicial, paixão arrebatadora por aquele anjo despencado do céu em minha vida.

Sua mão ainda sobre o meu braço, trouxe-me uma onda de calor. Agora era eu, no sentido inverso, que precisava de um bom copo de água gelada, com pedras de gelo de preferência.

Não quis que Ludovico a visse, pois ele saberia que ela era um das poucas mulheres que se podia amar para a vida toda. Certamente, iria me perseguir para saber o andamento das coisas. Mas com Jeni, eu não queria pressa. Ela teria todo tempo do mundo para perceber-me.


As mulheres, para os homens experientes, se conhecem pelos olhos. Os de Jeniffer não tinham medo, receios, nem sabiam o que esperar. As mulheres da vida olham como quem já sabe de tudo. Jeni não, olhava como se fosse a primeira vez e isso rompia, com ruidosas pancadas, o silêncio de um calabouço esquecido, no subterrâneo do meu coração, há muitos anos.

_Ruan, me leva com você? _ pediu-me.

Para onde? Para o infinito em um balão? Eu levo!

_Não me pede para ir embora porque eu não quero voltar para lá. _ explicou-me.

_Não vou pedir, Jeni. _ sorri e foi a primeira vez que chamei-a dessa forma.

_Estou com medo. Só consigo pensar neles invadindo a casa... Parece que estou vendo-os aqui... Não vou conseguir dormir. _ falou, já deitada em meu travesseiro. Seus olhos fecharam-se lentamente e ela adormeceu.

_Claro que vai, meu anjo. _ beijei-lhe a testa e recolhi a bandeja.

Peguei o vidro de calmante, ainda em cima da mesa da cozinha, e tirei mais um comprimido. Enquanto ela precisava daquilo só por uma noite, eu já era dependente por anos.

Ainda fiquei parado à porta do quarto, observando-a. Meu sono não chegava fácil como o seu. Percebi uma trilha de penugem na contramão em seu pescoço. Ele começava, delicadamente, na nuca e, de repente, sem mais explicação, mudava de direção. Sorri.

Deitei-me no chão da sala e, quando ela acordou na manhã seguinte, eu já estava à mesa, lendo o jornal.

_Dormi muito... _ ela balançou a cabeça para os lados e sentou-se. _ O leite daqui dá sono, hen? Nossa! Já são nove horas! _ olhou o relógio na parede.

_Bom, temos que resolver a sua vida. _ suspirei. _ Você não pode continuar vestindo minhas roupas. _ disse-lhe.

_É, elas não combinam comigo. _ riu e mostrou as mangas da blusa maiores que seu braço.

_Vamos até a sua casa. _avisei-lhe.

_Ruan, eu tenho medo...

Abri o armário da cozinha e tirei uma caixa de dentro. Abria-a e saquei meu revólver. Conferi as balas.

_Para que isso? _ ela arregalou os olhos.

_Eu sou o seu salva vidas, se esqueceu? _ pisquei o olho para ela. _ Anda, não demore muito a tomar o café, tenho que dar um pulo no quartel. Nem aos sábados os guerreiros descansam.

Autora: Li


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8 comentários:

Li disse...

Perguntinha que pula na orelha feito pulga:

_Será que a Jeni vai dar um jeito nesse Ruan? Tsi tsi tsi... Shiii, as mulheres tem um poder que só elas... heheheh

Como ele bem disse, os calabouços do seu coração saíram do silêncio.

Beijos meninas!

paula disse...

Ta bom Li! ninguem é perfeito e o Ruan não é deus! Eu so fiquei chateada pelo fred...mas isso é uma historia de amor....entao vou focar no casal...Eu até gosto do Ruan, porq dificilmente alguem cuidaria de alguem que não conhece direito, do jeito que ele ta fazendo com a Jeni...podem falar que é interresse mas não é...ele ta ajudando de coração...talvez porq ele sinta que aquela pessoa é especial!

mellzinhaaa disse...

"...quando você encontrar uma grande mulher, se entregue a ela e abandone a farra das outras, porque vai descobrir nela todas as mulheres do mundo..."

amei por demais essa conclusao!
perfeita²

aninha disse...

perfeito esse capitulo Li!!!! muito lindo!!!!! bju enorme no seu coração!!!!!

Lucy disse...

Gente... eu chorei, sorri, dei gargalhada! Chorei enquanto ria! E estou torcendo ainda mais pelo Ruan agora!!! Poutz! To com medo agora porque na 'orelha do livro' diz que ela tah apaixonada por um cara da internet... como será ele? Se ele for tão bom quanto o Ruan?! Ai caramba...

Eli, eu achava que o livro "Cada caso..." havia sido maravilhosamente emocionante. Estou, oficialmente, mudando de opinião depois deste capítulo. Não quis pensar isso logo no início do livro (apesar do primeiro capítulo ter sido mais-que-perfeito) porque eu quis dar mais uma chance pro "Cada caso..." mas, oficialmente, este foi para o topo da lista dos melhores. \o/

Um bjo grande!!! Gente, eu não vou perder uma vírgula disso tudo!!!!!!!

Lu disse...

Liiiiiiiiiii
oia eu de novo
uahauhauhauuha
tava meiu sumida feriado ne da nisso mas to dee volta
nossa to adorando o livro ja estou viciadaaaa uahuaha fico entrando direto pra ve se ja tem capitulo novo
so n gostei do au au ter morrido.. ;~
masss vamos ver se o Ruan recupera seus creditos cmg por ter matado o cachorro.. ele ja ta começando bem \o/
uhauahauhauahuaha


bjux Li

Li disse...

minhas fofuxas que eu amo tanto, beijo no coração de cada uma!!!!!!!!!!!!!!!! Lindocas, "vamos que vamos" que atrás vem gente.
ops, xá eu escrever o cap de hojeheheheh
nossa, desse jeito q escrevi nem parece que eu sou escritora, tsi tsi tsi hahaha

Li

Nati disse...

Amei esse capitulo!!!
To atrasada um ano no livro...ai ai ai...Tenho que correr.