14/09/2007

Cap 11: "Não está mais sozinho" (Ruan)

Abri a porta de casa, apenas Juanito veio me receber com muitos latidos. Apertei o botão da secretária eletrônica. Essa era minha rotina, ouvir os recados sempre que chegava. Deixei a boina em cima da mesa, ao lado da minha pasta e das chaves do carro.

_ “Ruan, eu vou à casa de uma colega para fazer o trabalho da escola, tá? Eu chego para a janta, beijos da Jenizinha”. _ a voz dela ecoou por toda a casa.

Fechei a porta da geladeira e bebi um pouco do suco de laranja que havia colocado no copo.

_“Ruan, é a nora do Lodovico...
_ ao ouvir aquela voz, parei no meio do corredor. _ ... Eu estou tentando te ligar, mas nao consegui...”

Senti um aperto no coração e um mau pressentimento. Fechei os olhos em uma prece.

_
Meu sogro faleceu. Sei que vocês eram amigos, então, te liguei para dizer, desculpe ter sido assim. O enterro foi ontem”.

A secretária fez um sinal de mensagens encerradas.

Não há palavras certas para dizer que perdemos um amigo. É sempre um golpe. Uma perda inexprimível. Engoli em seco e fui para a varanda dos fundos, perdido, sem direção.

Abri os botões da farda. Estava com uma raiva enorme do que aconteceu. Levantei-me, peguei o facão que usava para podar as árvores. Olhei para o pequeno arbusto que crescia e cortei alguns galhos com um golpe certeiro, outro e outro. Descontei com toda a força nos galhos secos.

_Ruan? Você já chegou. _ ouvi a voz de Jeni, que acabara de apontar a cabeça na porta da cozinha.

_Já, está tudo bem. _ falei-lhe.

Continuei podando a árvore. Até que, em um certo momento, o facão pegou na minha mão e fez um corte profundo.

_Ai...

_Ruan? _ Jeni ouviu meu gemido e veio correndo em minha direção preocupada.

_Não me toque. _ levantei a mão e o sangue sujou meu braço.

Ela se afastou e seus olhos estavam amedrontados. Jeni ficava assim quando eu era rude com ela.

Abri a torneira do tanque e tingi a água de vermelho.

_Deixa eu cuidar de você... _ colocou a mão no meu ombro.

_Foi só um corte.

_Ruan, por favor... _ fez-me virar. _ Onde colocou a caixa de curativos?

_No armário do banheiro. _ respondi.

Ela foi pegá-la e abriu a caixa em cima da mesa velha de madeira que havia na varanda. Sentei em cima da mesa.

_Você ainda está de coturno e farda... _ ela observou, tentando desviar minha atenção do ferimento que pingava no chão e formava uma poça.

_... _ suspirei, estava sem força até para falar.

Jeni posicionou-se entre minhas pernas entreabertas, pegou delicadamente minha mão e limpou com uma gase. Depois, cortou finas tiras de esparadrapo, cerca de dois centímetros cada, que usou como se fossem pontos, unindo um lado ao outro da pele cortada. Limpou mais uma vez a área e colocou gases em cima. Por fim, envolveu minha mão toda.

Enquanto fazia os seus procedimentos, não vi nenhum medo do sangue, nem do corte, em seu rosto. Estava tranqüila, como se sempre tivesse feito isso. Comentou que tinha visto na televisão, mas não se ensina na TV esse grau de controle.

Jeni estava tão perto de mim que eu podia sentir o barulho da sua respiração saindo pelas narinas. Seu cabelo preso em um rabo de cavalo deixavam alguns fios caírem no rosto. Vestia uma blusa branca de mangas compridas.

Eu podia puxar seu rosto para mim e beijá-la, mas era uma idéia sem mãos, sem coragem, só idéia fixa na cabeça. Um toque e ela poderia considerar-me um monstro, um interesseiro por seu corpo. Não poderia me aproveitar de Jeni, nem tocá-la, nem tê-la. Precisava conter-me só com aquela presença quase limite.

_Sujou sua farda. _ ela comentou e puxou a blusa camuflada
de mangas comprida para trás. _Deixa eu te ajudar... _ aproximou-se mais e eu deixei que tirasse.

Puxei para fora da manga um dos braços, depois o outro. Minha mão enfaixada roçou sua cintura. Os olhos de Jeni se encontraram com os meus, ela engoliu em seco. Será que em nenhum momento ela quis como eu, puxar, sentir, respirar junto, sôfregos, lábios nos lábios?

_O que está havendo? _ perguntou.

_Perdi meu amigo, ele morreu. _ respondi, voltando a lembrar-me da notícia.

Jeni acariciou meu rosto com o polegar da mão direita e, em seguida, com a outra puxou-me pela nuca para abraçá-la. Fechei os olhos e senti seu corpo envolver-me, ou era eu envolvendo-a. Ficamos assim unidos por um bom tempo que eu queria eterno.

_Lamento. _ disse-me baixinho. _ Vou prepara alguma coisa para você comer, tá? _ voltou a olhar-me alma na alma.

_Obrigado. _ agradeci pelo afeto, pelo abraço, pelo toque, mesmo que tudo isso só tenha se passado em minha cabeça.

Fui até o banheiro, abri a porta do armário e procurei meu vidro de remédios. Não estava lá. Antes que pudesse ir a cozinha perguntar a Jeni, a vi na porta do banheiro.

_Você não precisa mais disso.

_Preciso. _ irritei-me. _ Onde está?

Ela aproximou-se e chegou tão perto que sua testa encostou na minha:

_Não precisa. _ segurou meu rosto com as duas mãos. _ Toma um banho quente, tudo bem?

Respirei fundo e ela fechou a porta. Foi o que fiz, esqueci-me debaixo da água esfumaçante e depois comi o que Jeni havia preparado, não por fome, mas em agradecimento ao seu trabalho.

_Jeni, eu quero dormir. Me dá...

_Não. _ ela segurou delicadamente a minha mão e puxou-me para levantar.

Caminhou comigo até o quarto e pediu para eu deitar. Cai de bruços no travesseiro. Ela fez um carinho na minha cabeça e agachou-se à minha frente.

_Você vai fechar os olhos e deixar o sono vir, ok? Eu vou pegar o meu livro e sentar ali na cadeira para estudar. Vou estar aqui o tempo todo.

Eu sabia que aquela Jeni era a Jeni do carro antes do churrasco, a Jeni que inexplicavelmente deixava de ser menina por alguns minutos. Eu não sei qual das duas amei mais. Amei a primeira sem exigências, menina, infantil, ingênua. E quis da segunda, firme, fria, forte, que fosse sempre assim: por fora mulher e por dentro completamente menina. Mas não tinha como estabelecer uma ordem, uma dentro da outra. Jeni era híbrida, ao sabor do seu humor, ou quem sabe ao rigor das circunstâncias.

Meu único medo era que nenhuma viesse a ser capaz de me amar. Mas, meu amor por aquele anjo-mulher não pedia muito, só que ela precisasse de mim porque, enquanto fosse unida pela necessidade, eu teria um compromisso de vida. Não se pode viver em prol de ninguém, não se tem o mesmo impulso e paixão. Jeni era um sopro dentro dos meus pulmões adormecidos.

_Você podia ser enfermeira. _ disse-lhe, vendo-a agora de lado, por causa da minha posição deitado.

_Eu sei, é o que vou ser. _ sorriu-me e aquele sorriso me transmitiu toda a paz de que eu precisava. _ Descobri isso. _ contou-me. _ Você não precisa mais de remédio porque não está mais sozinho.

Fechei os olhos e o sono chegou devagar e pesado, escuro, profundo, silencioso e tinha o cheiro do perfume de Jeni.


Autora: Li

*Cadê minhas leitoras amadas, sumiram?*

7 comentários:

Quel disse...

LI!!!
Eu to aqui!!!heheheh
É que estava sem pc, dai no trabalho não consigo comentar!Mas estou aqui todos os dias lendo!!!
Na torcida pelo Ruan, por mais que ele tenha defeitos gosto dele!
Escrevendo muito bem como sempre!!!
Beijoss linda!

Lucy disse...

*lágrimas*
Liiiiiii vc se supera a cada capítulo!!!!!!!!!! \o/

Li... lembra que comentei sobre a mudança repentina da Jeni? Você conseguiu encaixar tudo direitinho! Depois me lembre de te explicar melhor (sou melhor com palavras do que com letras).

Queira Deus que vc sempre tenha vontade de escrever... é o meu momento de esquecer o mundo triste para viver um pouco de um outro mundo. Esquecer dos problemas e me concentrar nas emoções dos personagens.

Esses dois... são perfeitos juntos. (^_^) Se ela gostar de outra pessoa... bem, eu acredito que ninguém vai amá-la como ele, um grande conhecedor da Jeni na essência. Todos os outros só verão a parte física, não conhecerão (à princípio) a essência dela... claro que o tempo ajuda nessa descoberta, mas o Ruan... a Jeni... eles... aiai... *suspiro* é tudo muito lindo de se ver.

Bjos e bjos!!!

Li disse...

:)
Sim, esses dois foram escritos nas estrelas!
E vocês ainda não viram nada... tantas coisas para acontecer!
Mas só conto capítulo a capítulo!
Beijocas da Li!

Paula disse...

Estou aqui...voltei!!
AH a Jeni é como a maiorioa das meninas de sua idade...ora menina, ora mulher! Eu tenho ou melhor eu tinha um amigo como o ludovico, um velhinho que morava aqui na rua e ele era muito sozinho e sempre que eu podia depois do colegio eu passava pra ve-lo, a umas 3 semanas ele se foi, mas eu não fiquei triste...pois ele estava sofrendo tanto, pois ele teve problema respiratorio e de locomoçao...mas agradeci porq ele me ensinou tanta coisa legal...nos seu jeito de viver...
Queria agradecer pelo dia que perdi minha cadela,essa eu chorei muito, pois por problemas na familia eu tive que deixar-la e quando eu fui pegar ela de volta ela nao ressistiu, foi as 24hs mais estranha, feliz por ve-la, triste por perde-la,foi muito ruim, pois aquela bola de pelo passou foi meu maio amor! valeu meninas!

aninha disse...

Paula, nem me fale em perder cachorro!!! quando a minha jucy morreu... nossa... fiquei mals....chorei demais!!! levei noites sem dormir direito!!!!! e essa cumplicidade nascendo entre eles... ai que lindo, que emoção!!!!!

Nathália disse...

Agora me reconheci na Jeni e o livro parece q ficou ainda melhor!!

Show Li

Bks pra todas!!

Nati disse...

Eh tão lindo esse momento de descoberta, de começar a sentir...Paixao proibida.
Nossa, vc descreve tudo muito bem.

To adorando cada capitulo.

Parabens Li.

=**